
Alfabetizar com amor: o ponto de partida da educação inclusiva
Quando falamos em alfabetização, muitas pessoas pensam apenas em letras, sílabas e palavras. No entanto, ao longo da minha trajetória na educação, aprendi que alfabetizar vai muito além de ensinar a ler e escrever. Alfabetizar é acolher histórias, reconstruir autoestima e devolver oportunidades.
Minha primeira experiência como educadora aconteceu em um projeto público de alfabetização de idosos. Foi ali que compreendi que a educação não tem idade e que aprender é um direito que acompanha o ser humano durante toda a vida.
Ao entrar naquela sala de aula, encontrei pessoas com mais de 60 anos de idade carregando histórias de trabalho, luta, família e superação. Muitos haviam sido privados da oportunidade de frequentar a escola quando crianças. Outros precisaram abandonar os estudos muito cedo para ajudar no sustento da família.
Foi também naquele projeto que tive meu primeiro contato com os ensinamentos de Paulo Freire. Aprendi que ninguém educa ninguém sozinho e que o conhecimento nasce do diálogo, das experiências e da valorização da trajetória de cada pessoa.
Mais do que ensinar conteúdos, trocávamos vivências. Cada estudante trazia consigo saberes construídos ao longo da vida. Eu ensinava letras e palavras, mas eles me ensinavam sobre coragem, perseverança e esperança.
Um dos maiores desafios era a escrita do próprio nome. Para muitos daqueles estudantes, escrever o nome parecia algo distante, quase impossível. Eram homens e mulheres que haviam passado décadas assinando documentos com a impressão digital ou dependendo de outras pessoas para realizar tarefas simples.
Lembro-me da emoção presente em cada conquista. A alegria estampada no rosto quando conseguiam escrever o próprio nome pela primeira vez era algo impossível de descrever completamente.
Alguns diziam com orgulho:
“Agora posso assinar meu documento.”
Uma frase simples, mas carregada de significado.
Naquele momento, compreendi que a alfabetização não representa apenas o domínio da leitura e da escrita. Ela representa autonomia, dignidade, pertencimento e cidadania.
Essa foi uma das maiores lições da minha vida profissional: toda pessoa é capaz de aprender quando encontra acolhimento, respeito e oportunidades adequadas.
Ao longo dos anos, essa experiência continuou guiando minha atuação na educação. Trabalhando com diferentes públicos, percebi que muitos estudantes carregam marcas deixadas por experiências escolares difíceis. Alguns acreditam que não são capazes. Outros perderam a confiança em si mesmos.
Mas a educação tem o poder de transformar histórias.
Talvez essa compreensão também tenha relação com minha própria trajetória. Quando criança, enfrentei dificuldades no processo de aprendizagem e sei o quanto é importante encontrar pessoas que acreditam em nosso potencial.
Por isso, aprendi a olhar além das dificuldades e a enxergar possibilidades.
A educação inclusiva começa quando deixamos de perguntar por que alguém ainda não aprendeu e passamos a perguntar de que forma podemos ajudá-lo a aprender.
Alfabetizar com amor não significa facilitar o caminho. Significa reconhecer que cada pessoa possui seu próprio tempo, sua história e sua maneira de construir conhecimentos.
Foi dessa crença que nasceu o Alfabeti-Zar.
Um projeto construído a partir da certeza de que aprender é possível para todos.
Porque antes de qualquer método, atividade ou recurso pedagógico, a educação inclusiva começa com um olhar humano.
E foi em uma sala de alfabetização de idosos que aprendi minha primeira e mais importante lição como educadora: quando acreditamos nas pessoas, elas também passam a acreditar em si mesmas. 💜
