
EJA e DUA: Como uma Aula Transformou Minha Forma de Ensinar
Publicado em 24 de julho de 2026
Muito antes de conhecer o Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA), vivi uma experiência na Educação de Jovens e Adultos (EJA) que transformou definitivamente minha forma de ensinar.
Durante muitos anos da minha trajetória como professora, vivi situações que me ensinaram mais do que qualquer curso de formação. Uma delas aconteceu quando eu lecionava Arte para os anos finais do Ensino Fundamental e também para uma turma da Educação de Jovens e Adultos (EJA).
O conteúdo da aula era tridimensionalidade.
Como muitos professores fariam, iniciei explicando os conceitos de altura, largura e profundidade. Mostrei imagens, apresentei exemplos e procurei diferentes formas de explicar. Ainda assim, percebia que aqueles conceitos permaneciam distantes da realidade dos estudantes.
Eles ouviam, observavam, mas a aprendizagem não acontecia como eu esperava.
Foi então que me lembrei de uma atividade que costumava desenvolver com minhas turmas do sexto ano. Depois de estudar uma obra de arte, os estudantes transformavam aquela imagem bidimensional em uma representação tridimensional, reconstruindo o ambiente do quadro com diferentes materiais.
A atividade sempre despertava curiosidade e facilitava a compreensão dos conceitos.
Naquele momento surgiu uma dúvida.
Será que essa estratégia também funcionaria com adultos?
Adaptei a proposta respeitando a faixa etária da turma. Não infantilizei a atividade. Apenas transformei um conceito abstrato em uma experiência concreta.
O resultado foi surpreendente.
Ao construir os cenários, observar diferentes planos, discutir soluções e manipular os materiais, os estudantes compreenderam naturalmente aquilo que antes parecia tão difícil de explicar.
“O problema não estava nos estudantes. O problema era acreditar que existia apenas uma maneira de ensinar.”
Anos depois conheci o Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA) e compreendi que aquela experiência já refletia exatamente seus princípios.
O DUA foi desenvolvido por David Rose e Anne Meyer, pesquisadores do CAST (Center for Applied Special Technology), e parte da compreensão de que a variabilidade entre os estudantes não é uma exceção, mas a regra. No Brasil, pesquisadores como Ana Paula Zerbato têm contribuído para ampliar a compreensão e a aplicação dessa abordagem nas práticas pedagógicas inclusivas.
Na prática, isso significa planejar considerando três grandes princípios.
💚 Engajamento
As pessoas aprendem melhor quando encontram sentido no que estão fazendo. Naquela atividade, os estudantes deixaram de apenas ouvir uma explicação e passaram a construir, experimentar e participar ativamente. O interesse aumentou porque a aprendizagem fazia sentido.
🩵 Representação
Nem todos compreendem um conteúdo da mesma forma. Alguns aprendem ouvindo. Outros precisam observar. Muitos precisam experimentar. Ao transformar uma imagem em um ambiente tridimensional, o conceito deixou de existir apenas na explicação verbal e passou a ser visto, manipulado e vivenciado.
🧡 Ação e Expressão
Também existem diferentes maneiras de demonstrar aquilo que foi aprendido. Naquela aula, os estudantes não responderam apenas perguntas. Eles construíram, apresentaram, argumentaram e compartilharam suas descobertas. Cada produção revelava sua compreensão sobre o conteúdo.
Hoje percebo que aquele momento marcou profundamente minha prática docente. Aprendi que utilizar estratégias concretas, visuais e significativas não é “coisa de criança”. É uma forma de respeitar a diversidade presente em qualquer sala de aula.
Crianças, jovens, adultos e idosos aprendem quando encontram caminhos que dialogam com suas experiências, seus conhecimentos e suas formas de compreender o mundo.
É exatamente essa reflexão que inspirou o Material 05 do Projeto Alfabeti-Zar. Neste início de semestre, quando pensamos em acolhimento, sondagem e planejamento, o DUA nos convida a fazer uma pergunta essencial:
💭 Pergunta para refletir
Como posso planejar minhas aulas para que mais estudantes consigam aprender desde o primeiro dia?
Talvez a resposta não esteja em explicar mais. Talvez esteja em criar mais possibilidades de aprender. Porque, quando a estratégia muda, a aprendizagem também pode mudar.
Perguntas Frequentes
O que é o Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA)?
O DUA é uma abordagem pedagógica desenvolvida para considerar a diversidade de formas de aprender desde o planejamento das aulas. Em vez de adaptar o ensino apenas quando surgem dificuldades, propõe oferecer múltiplas formas de engajamento, representação das informações e ação e expressão, ampliando as oportunidades de aprendizagem para todos.
O DUA pode ser aplicado na Educação de Jovens e Adultos (EJA)?
Sim. Os princípios do DUA podem ser utilizados em qualquer etapa da educação. Na EJA, estratégias concretas, visuais e significativas favorecem a compreensão de conceitos sem infantilizar as atividades, respeitando a experiência e a trajetória dos estudantes.
Quais são os três princípios do DUA?
Os três princípios são: Engajamento — despertar interesse e motivação para aprender; Representação — apresentar os conteúdos de diferentes maneiras; Ação e Expressão — permitir diferentes formas de demonstrar a aprendizagem.
Como o Material 05 pode ajudar no planejamento das aulas?
O Material 05 – Sondar antes de planejar oferece orientações para acolhimento, sondagem pedagógica e planejamento do início do semestre, auxiliando o professor a conhecer melhor sua turma antes de definir estratégias de ensino.
Referências
- CAST. Universal Design for Learning Guidelines 3.0.
- MEYER, Anne; ROSE, David H.; GORDON, David. Universal Design for Learning: Theory and Practice. CAST Professional Publishing.
- ZERBATO, Ana Paula. Publicações e pesquisas sobre Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA), práticas pedagógicas inclusivas e formação docente no contexto brasileiro.
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